A História
As origens da vila de Barrancos remontam aos finais do século XIII, aldeia pertencente à vila de Noudar, então sede do município. A região foi conquistada aos Mouros para o reino de D. Afonso Henriques, em 1167, por Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, sendo devolvida a D. Fernando II de Leão em 1169 e recuperada, nesse mesmo, ano pelos muçulmanos. Esta luta entre cristãos e muçulmanos arrastou-se com avanços e recuos por mais um século. Sendo novamente Noudar pertença portuguesa, no reinado de D. Sancho II (1223-1248), teria este prometido ao futuro Afonso X o Sábio, a cedência de todas as terras além do Guadiana. Mais tarde, segundo carta de doação de 4 de março de 1283, Afonso X, rei de Castela, entrega Noudar a Dona Beatriz, sua filha, viúva de D. Afonso III rei de Portugal desde 1279, juntamente com as praças de Mourão, Moura e Serpa. O Foral de Noudar, que segue o modelo do de Évora, foi concedido em 1295 por D. Dinis, filho de Dona Beatriz e D. Afonso III, e confirmado em 1513 por D. Manuel I. O tratado de Alcanices, assinado em 1297 por D. Dinis e D. Fernando IV, rei de Castela e Leão, fixou os limites da fronteira entre ambos os reinos. Todavia, a região de Noudar continuou uma zona de litígio e de indefinição administrativa, sendo por várias vezes posse do reino de Castela. 2 Em 1303, D. Dinis faz doação de Noudar ao Frei D. Lourenço Afonso Mestre da Ordem de S. Bento de Avis, como agradecimento pela colaboração que a mesma dera ao rei durante os conflitos com Castela, sendo obrigação desta reconstruir e fortalecer o castelo. Em 1308 foi criado em Noudar o primeiro couto de homiziados do país, com vista à defesa da fronteira e travar o despovoamento. Existiam na época 79 moradores. Outros foram os períodos em que a região esteve na posse de Castela. D. Afonso IV envolveu-se em guerra com Castela (1336-1339), facto que levou provavelmente à perda de Noudar. No reinado de D. Fernando (1367-1383), Noudar voltaria a Portugal em 1372, regressando novamente a Castela após a sua morte. Na crise de 1383-1385, Noudar tomou a voz por D. Beatriz, Infanta de Portugal, filha de D. Fernando, casada com D. João I de Castela desde 1383 Com a integração de Portugal na coroa de Castela (período filipino 1580-1640), a aldeia de Barrancos adquire mais importância que a vila de Noudar, ficando assim o castelo desprovido de sentido. A população maioritariamente castelhana estava concentrada em Barrancos, verificando-se na época um crescimento demográfico, devido provavelmente à monarquia dualista. A presença de castelhanos na região é certamente mais antiga. Nos finais do séc. XV as terras fronteiriças de Castela alcançaram um super-povoamento com a consequente diminuição das terras de pastagem o que pode explicar o movimento migratório para Portugal e a pressão sobre as terras quase despovoadas de Barrancos. Com o envolvimento de Portugal nas Guerras da Sucessão de Espanha, as tropas do Duque de Osuna em 1707, apoderam-se de Noudar conservando-se em poder de Espanha até à assinatura do Tratado de Utreque (1715). Aquando da ocupação castelhana, Noudar é votado ao abandono e, entre 1774 e 1835, surge pela primeira vez, a designação de município de Noudar e Barrancos. Assim sendo, o município passa a ter a população concentrada na aldeia (Barrancos), situada a mais de 3 10Km de distância, e o seu corpo militar e administrativo assente no castelo (Noudar). Entre 1774 e 1835, surge pela primeira vez, a designação de município de Noudar e Barrancos. Com a reforma administrativa promovida pelo governo liberal de Mouzinho da Silveira, em 1836, Barrancos é elevada à categoria de vila, passando o município a ser denominado somente pelo nome de Barrancos. Finalmente, na sequência de nova reorganização administrativa assinada por João Franco, que extinguiu mais de 500 municípios, é publicado o decreto n.º 26 de 27/06/1896 pelo qual é “suprimido o município de Barrancos, sendo anexado ao de Moura”. Contudo, a revolta da população local e a constatação da existência de uma realidade cultural específica, levou a que esta situação nunca se chegasse a concretizar de facto e, dois anos depois, por lei de 13 de janeiro de 1898 foi novamente restaurado o município de Barrancos, com sede na Vila de Barrancos.
Localização geográfica e administrativa
A vila de Barrancos é a única localidade do município, assumindo-se como freguesia e sede de município em simultâneo. Concentra dentro de si a maior parte da população, uma pequena percentagem habita nos montes vizinhos. Em 2001 apresentava 1924 habitantes, sendo o município com menor população de Portugal Continental (Censos 2001). O território do município de Barrancos, com apenas uma freguesia (Barrancos), possui uma área de 169 Km2, situa-se na raia alentejana, na margem esquerda do rio Guadiana. Encontra-se envolvido a poente pelos municípios portugueses de Moura e Mourão e a nascente pelos municípios espanhóis de Oliva de La Frontera e Valencia del Mombuey (província de Badajoz) e Encinasola (província de Huelva). A sede de Distrito (Beja) encontra-se a 110 Km, assim como a cidade de Évora. A capital, Lisboa, dista 250 Km. Por razões de ordem histórica, cultural e geográfica a comunidade barranquenha possui uma forte ligação com Espanha. Encinasola (Espanha) dista apenas 9 Km de Barrancos, enquanto que Santo Aleixo da Restauração, freguesia do município de Moura, localidade portuguesa mais próxima, dista 21 Km. Esta ligação reflectese a nível do próprio dialecto assim como nas manifestações culturais e etnográficas, sejam elas populares religiosas.
Como paisagem cultural, Barrancos apresenta vestígios humanos desde o Calcolítico Médio/Final. A antiga sede do município, Noudar, é disso um exemplo: “As ocupações sucessivas desta área apresentam uma lógica profundamente ligada às potencialidade naturais da região: a mineração e a pastorícia” (Agenda 21 Barrancos). Desde o alvor do trabalho dos metais até à conquista cristã no século XIII, passando pela construção da cerca amuralhada no século XIV, toda esta região constitui um marco na história local do município reconhecido com a sua classificação, em 1910, como Monumento Nacional.
Salienta-se a existência de alguns monumentos megalíticos, provavelmente relacionados com a cultura do Sudeste espanhol ou de influência almeriense, e de um Castro ou povoamento fortificado na zona, possivelmente pertencente à série de povoados Neolíticos do Baixo Alentejo. As serras da Contenda, consideradas espaço natural de Barrancos, possuem uma diversidade natural e paisagística única, fruto de uma multiplicidade de habitats: “montados de azinho dispersos, montados de sobro densos, matagais mediterrânicos, áreas pseudoestepárias, florestas de coníferas e linhas de água de regime torrencial” (PAIS, 2001). Nelas encontram-se ainda explorações de uso múltiplo e de regime fundiário de grande propriedade que constituem importantes refúgios para a vida selvagem, ainda que tenham perdido alguma da sua diversidade característica. A área florestal resume-se à zona da Serra da Colorada, propriedade municipal gerida pelos serviços florestais. Do ponto de vista urbanístico e arquitectónico de Barrancos, ressaltam as influências andaluzas, formalizadas numa estrutura urbana com casas térreas e alinhadas, ligadas directamente à rua, com becos e ruas emaranhadas. A Vila Raiana de Barrancos representa-o na perfeição, com casas caiadas de branco e emolduradas de xisto, construídas em ruas sinuosas de acentuados desníveis e escadarias que vão dar à praça, o ponto de encontro de toda a população. É nesta 7 praça, refira-se, que se faz a fogueira no Natal e se montam os tabuados para as corridas de touros, o expoente máximo da cultura barranquenha.