Preservação e valorização da Língua e Cultura Barranquenhas

O Projecto

1 – Os pilares do projeto e da ação

​A língua é a expressão do pensamento por isso preservar uma língua é preservar o seu modo de pensar. O barranquenho, língua híbrida sem tradição escrita/ágrafa, única no mundo pelo seu carácter misto de português e espanhol, falado por cerca de 1800 pessoas desde há vários séculos, está em vias de desaparecimento devido à pressão demográfica e ao envelhecimento da população, à influência da língua estândar – o português –, à padronização inerente à escolarização, ao maior contacto das pessoas com a realidade exterior, à influência dos meios de comunicação e à tendência para a homogeneização/uniformização que os processos de globalização implicam. Vila raiana, no limite do distrito de Beja junto à fronteira com Espanha, Barrancos possui um património linguístico inestimável, fruto de uma vivência histórica única, que corre o risco de se perder na voragem da padronização linguística proporcionada, para o bem e para o mal, pela escola e pela comunicação social. É, por isso, urgente preservar esta língua tão característica, que é parte integrante da identidade cultural da vila e das gentes de Barrancos, mas corre risco de se diluir num futuro mais ou menos próximo. Embora ainda hoje permaneça, teimosamente, como uma característica identitária da maior parte da população, é premente a implementação do objetivo proposto para que um dia não se venha a verificar que, lamentavelmente, então será demasiado tarde. Daí a importância da preservação do Património barranquenho como um todo, compreendendo e articulando tanto o património material como o património imaterial, motivo por que uma estratégia de salvaguarda para o futuro deve assumir que língua e cultura são indissociáveis, incluindo, por isso, a região e o seu meio ambiente (Parque de Natureza de Noudar), pois é nesse território e nesse meio que a história de Barrancos se desenvolveu até aos nossos dias. Deste modo, fomentar-se-á, no seio da comunidade, uma consciência de “defesa” do que é seu, aí compreendendo o meio ambiente em que está inserida.

2. Património Imaterial: as línguas minoritárias e ameaçadas

De acordo com as diretrizes de vários organismos internacionais em matéria de defesa e proteção das línguas minoritárias e ameaçadas, ao amparo da Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da UNESCO, aprovada a 17 de outubro de 2003, ratificada pelo Decreto do PR nº 28/2008 de 26/3, no seu artículo 2, secção a), entende-se por “património cultural imaterial as práticas, representações expressões, conhecimentos e aptidões […] que as comunidades, os grupos e, sendo o caso, os indivíduos reconheçam como fazendo parte integrante do seu património cultural”. O património cultural imaterial é uma construção dinâmica, transmitida de geração em geração e constantemente recriada pela interação entre as comunidades e o meio onde se inserem. Desta construção surge o sentimento de identidade e de continuidade, contribuindo desse modo para o respeito pela especificidade e pela diferença. Ora, à luz destas disposições internacionais, por constituir o fulcro do património cultural de Barrancos, o estudo do barranquenho é fundamental, uma vez que este constitui um lugar de encontro entre as culturas peninsulares, atribuindo-lhes especificidade (tradições orais, atividades culturais, culinária, artesanato). Barrancos tem um património único porque nesta terra estão reunidas circunstâncias especiais e particulares, relacionadas com as tradições orais, musicais, culturais, costumes, formas de fazer… Guarda um resquício da literatura oral peninsular (visível nas canções de quintos, de Natal, nos romances, nas adivinhas, nos ditados populares) e, provavelmente, o último vestígio das origens da cultura musical procedente da zona nordeste portuguesa (o Bibo, por exemplo). A importância da documentação (registo da língua nas práticas quotidianas da comunidade) e da investigação sobre o barranquenho transcende, pois, as fronteiras do concelho, apresentando um evidente interesse regional, nacional, peninsular e internacional, porque, dizendo embora respeito aos barranquenhos, não deixa de ser um património de todos os portugueses e, sem exagero, de todos os peninsulares.

3. Consciência linguística e reconhecimento

O reconhecimento da língua e cultura barranquenhas pela comunidade fica atestado na aprovação pela Câmara Municipal de Barrancos, em 2008, da sua classificação como Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal, pela organização do Congresso Internacional O barranquenho: ponte entre línguas e culturas. Passado, presente e futuro, que se realizou a 2 de Junho de 2017 e pela publicação do livro intitulado O Barranquenho: Língua, cultura, tradição (Navas, Lisboa, Colibri, 2017). Embora estas iniciativas sirvam o propósito de preservar a memória da cultura local e de promover o estudo e o reconhecimento externo do Barranquenho, o fortalecimento da autoestima e da consciência linguística no seio da comunidade requer uma série de medidas de várias naturezas, de médio e longo prazo, sem as quais o barranquenho corre sérios riscos de vir a perder-se em poucas gerações, incluindo-se, deste modo, entre as muitas línguas que, diariamente, deixam de existir.

4. Medidas de política linguística

Com vista à preservação da língua e cultura barranquenhas, propõe-se uma série de iniciativas a curto, médio e longo prazo.

4.1 A curto prazo e com carácter de urgência

​Urge documentar a língua a cultura barranquenhas porque o envelhecimento dos falantes e o seu desaparecimento da geração mais velha pode ser uma perda irreparável se não se guardar a memória de práticas linguísticas e culturais. Esta medida supõe recolher a tradição cultural transmitida em língua barranquenha, que é condição sine qua non a uma eventual/possível inscrição na Matriz Nacional de Património Cultural Imaterial. Isto é: Qualquer forma de reconhecimento por parte de organismos nacionais ou internacionais passará, necessariamente, por tarefas prévias relacionadas com a recolha a tradição e memória local e, ainda, de um trabalho no seio da comunidade. ​a) Documentar a língua e, ao mesmo tempo, criar um arquivo local para recolher em gravações (vídeo) os aspetos e recursos endógenos mais relevantes da sua cultura, facultando formação a membros da comunidade que, deste modo, tomarão em mãos a preservação da memória coletiva (apoio de CIDLES – Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social: http://www.cidles.eu/)

  • ​Artesanato
  • Culinária
  • Matança do porco
  • Literatura oral e tradicional
  • Contrabando
  • Campo de refugiados
  • Ofícios

b) Criar um portal web que reúna e disponibilize todas as informações bibliográficas existentes sobre a língua cultura barranquenhas (apoio CIDEHUS: www.cidehus.uevora.pt e Cátedra UNESCO http://www.catedraunesco.uevora.pt ). Este portal permitirá à língua e cultura barranquenhas ter uma porta aberta para o mundo: agregar e disponibilizar o conhecimento científico já produzido em torno da língua e da cultura locais, o avanço das medidas propostas para a sua salvaguarda e valorização, mas também a divulgação, uma vez que disponibilizará online não só informação científica (livros, artigos, comunicações, etc.), permitindo assim acesso a documentação e a resultados das atividades, mas também oferecerá um arquivo (registos fonográficos e videográficos). ​Como repositório digital da memória e do estado atual da língua barranquenha, o portal, será, portanto, um instrumento fundamental para a sua preservação e divulgação a nível global. Pretende-se, desta forma, incrementar a identidade linguística e cultural dos habitantes de Barrancos, ao mesmo tempo que se promove a divulgação do seu património no plano nacional e internacional, já que a língua e culturas barranquenhas não possuem, até à data, qualquer “instrumento” criado para as projetar no plano nacional e internacional. ​c) Editar em livro os textos apresentados do Congresso Internacional O barranquenho: ponte entre línguas e culturas. Passado, presente e futuro (Câmara Municipal de Barrancos em parceria com o CIDEHUS-UÉ/FCT, Direção Regional de Cultura e outros). Esta edição consistirá num importante contributo para a atualização e internacionalização do conhecimento sobre o Barranquenho, já que incluirá estudos de investigadores de universidade portuguesas, espanholas, americanas e inglesas.

4.2 A médio prazo:

a) Elaborar uma convenção ortográfica, processo que se encontra em fase adiantada, graças à Tese de Doutoramento de Victor Correia (em curso). ​Esta medida tem a maior importância, uma vez que sem ela o Barranquenho sofre ameaças várias e continuará exclusivamente uma língua ágrafa, com tudo o que esta condição supõe. Por outro lado, a adoção de uma Convenção, produzida de acordo com padrões científicos e que seja consensualizada na comunidade, possibilita que se explore o “potencial económico” da língua Barranquenha, aumentando a curiosidade pelas singularidades da vila e constituindo-se como um foco de atração cultural e turística. b) Aplicação da convenção ortográfica na toponímia local, nomenclatura das ruas, em rótulos, folhetos turísticos, ementas dos restaurantes, cartazes, nomes de edifícios oficiais, a par de rótulos em português e espanhol (Câmara Municipal de Barrancos). Esta é da alçada da CMB, a quem cabe operacionalizá-la. c) Realização do II Congresso Internacional sobre o Barranquenho para dar continuidade ao de 2017, analisar avanços comparativos e discutir a aplicação das medidas em curso.

4.3 A longo prazo:

​a) Elaboração de uma gramática da língua barranquenha (a ser desenvolvida por vários estudiosos). Esta medida visa possibilitar a aquisição do Barranquenho em contexto escolar, e não apenas mediante o habitual processo de transmissão de qualquer língua natural, assegurando, assim, a sua continuidade na comunidade e o reforço da auto-estima linguística da população. b) Elaboração de um dicionário trilingue, barranquenho-português-espanhol (a ser desenvolvida com o apoio de vários estudiosos). Trata-se de um instrumento descritivo que, baseado na investigação linguística das três línguas presentes em Barrancos, seja útil para toda a comunidade barranquenha e para todos quantos queiram conhecer o léxico própria língua Barranquenha. c) Implementação na escola (Câmara Municipal de Barrancos, docentes de Barrancos, com apoio dos estudiosos).

5. Parceria

Programa de Preservação e Valorização do Património Cultural Barranquenho
Contrato de 4 de Maio de 2020 entre a Câmara Municipal de Barrancos e a Universidade de Évora

  • Câmara Municipal de Barrancos
  • Universidade de Évora
  • Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social
  • Centro de Linguística da Universidade de Lisboa
  • Projeto Frontespo-03

6. Resultados do Projecto

  • Publicação das intervenções do Congresso de 2017
  • Portal / website
  • Inauguração a 13 de fevereiro