As festas de Agosto de Barrancos, que têm lugar sempre nos últimos dias desse mês, perdem-se no tempo. São em honra de Nossa Senhora da Conceição comemoram-se invariavelmente, cumprindo, segundo Capucha, o pleno significado de Festa, que se traduz em transgressão, exceção e excesso.

A ”festa em estado puro” (Capucha, 1994) inicia-se a 28 de Agosto, dia religioso que inaugura o começo das festividades, integrando-se todos os barranquenhos nas cerimónias, nomeadamente na procissão de veneração da sua padroeira.

​Pelas seis da manhã são lançados morteiros. De tarde a banda de música percorre as ruas íngremes, onde homens, mulheres e crianças formarão a procissão em honra de nossa Senhora da Conceição. Que é anunciada por foguetes e encerrada pela banda e pelos homens, cujo molho se distingue das filas ordenadas de mulheres. Depois de visitadas as ruas, a Nossa Senhora regressa à igreja, cumprindo-se o ato de fé, o dever religioso, mítico e sagrado (Segão, 2000).

Após a procissão tudo muda, é na praça central, designada por Praça da Liberdade, que o povo começa a dar largas à excitação, que cresce com o aproximar das festas.

Na noite do primeiro dia das Festas, os tabuados (conjunto de traves e pranchas em madeira que cercam o largo da Igreja para que se possam realizar as corridas e nos quais assentam as bancadas de madeira para a assistência), servem de cenário para os dançarinos espanhóis que dançam “ rocieros” e sevilhanas que tocam “boleros” e “pasodobles” e artistas espanhóis que têm grande aceitação (Segão, 2000).

Todos participam nesta alegria colectiva. Já pela madrugada dentro, a festa continua. É hora de ir buscar os touros ao campo aberto. É o encerro, outro ritual onde os gritos invadem todas as ruas. De manhã, com a excitação despertando o sono, jovens e idosos, mulheres e homens barranquenhos e visitantes dirigem-se à rua íngreme que dá acesso ao largo da igreja e aos “tabuados”. Na manhã de cada dia de festa chega o encerro dos toiros. Logo cedo, toda a população e visitantes acorrem à praça, onde a CMB montou os tabuados. Soam os foguetes e o primeiro toiro ir rompe na “are na” improvisada vindo de uma calçada íngreme que desemboca no largo, por entre as fugas aparentemente desordenadas, os tropeções e os sus tos dos homens e rapazes mais afoitos ou temerários. Mãos hábeis laçam o animal com uma corda e de pois fecham-no no curro, construído debaixo dos tabuados. Depois virá outro toiro. Uma vez encerrado também esse, os mais velhos dirigem-se a uma das sociedades ou uma taberna para beber umas “copitas” com amigos até ao almoço, enquanto os mais novos vão dormir uma pequena sesta. A meio da tarde, os jovens, semi-refeitos com a sesta, e os adultos, já de almoço comido, todos convergem para a praça. Os homens mais novos e os rapazes aguardam no meio do recinto o início da tourada, altura em se colocam na parte interior dos tabuados, em posição que lhes permite subir e furtar-se à investida do toiro. Outros homens, geralmente mais idosos, verão a tourada a partir das “sociedades” ou da parte exterior dos tabuados, por baixo das bancadas, onde também se colocam algumas mulheres com crianças que não conseguem lugar em cima. (Capucha, 2002).

​Salta o primeiro toiro à praça, e é lidado com a arte e o engenho possíveis. Em função do mérito da lide e da estocada com que é morto assim o toureiro será saudado e brindado com apêndices do animal (as ore lhas e o rabo) ou fortemente “abroncado”. De pois vem o segundo to iro, terminando a corrida com o respectivo arraste pelas mulas, por entre a multidão que entretanto invade o recinto. Assim se passa nos dias 29 e 30 de Agosto. No dia 31 há uma diferença: na tourada são lidados um novilho e uma vaca, que deverá ser pegada e, na sequência de uma das pegas, levada ao interior da “sociedade de dos ricos”. Regressa ao recinto rodeada pelos homens que a agarram e cercam até que cai fulminada por “choupa” certeira (Capucha, 2002).